Audiofilia e outras histórias

Audiofilia e outras histórias

Estudos recentes vem demonstrar que a Música é um fenómeno humano que remonta aos Neandertalianos (ver o artigo The Singing neanderthals, Mithen, 2005). Trata-se de uma forma de linguagem que consegue transmitir aos outros as nossas Emoções, tal como a linguagem serve de comunicação mais abrangente. Faz assim parte da nossa evolução como animais racionais e permite utilizar a nossa capacidade cognitiva de um cérebro que tem 3.5 vezes mais dimensão que o de um macaco.
Ora para mim a Música sempre foi um das várias razões que me fazem levantar de manhã e esperar por aquele momento em que estou em casa a ouvir calmamente a minha música preferida. E essa música, tendo então uma relação muito intima com os afetos, também ela varia no seu tipo conforme o meu Estado de Espírito. Ajuda a esquecer os maus momentos e reforça os bons.
Mas, para mim, não chega ouvir boa música. Preciso de a ouvir com a mínima interferência dos elementos mecânicos e eletrónicos que transportaram esses sinais desde quem criou passando por quem gravou, quem misturou, prensou e depois amplificou até aos meus ouvidos.
Sim, sou Audiófilo. A importância que dou aos meus sistemas de som é proporcional há minha capacidade de focalização na música que estou a ouvir (quando oiço música, não consigo fazer mais nada, entro um pouco em estado de fluxo!) mas acima de tudo proporcional ao respeito que dou a toda a fileira de músicos, estúdios de gravação e fábricas de meios de reprodução sonora.
Ser audiófilo representa pertencer a um nicho de entusiastas que leva esta coisa do som a um nível muito elevado de quase (e este quase é mais um eufemismo!) obsessão. E temos um conjunto de regras universais que passo a pormenorizar e que serve de base, podemos chamar teórica, para as nossas aquisições de equipamentos:

É mais divertido obter um desempenho fabuloso de um sistema de preços moderados do que obter um bom som de um sistema caro.

Leva 10 anos a partir do momento de um gadget bizarro ser relatado para a descoberta de evidências científicas explicando o que se passa efetivamente.

O tipo de erro introduzido pelo sistema de áudio é mais importante do que a grandeza de um erro.

Se o primeiro watt de um amplificador de potência não é bom, por que você iria querer mais 199?

O mais poderoso upgrade de todos- a otimização da colocação das colunas na sala- e é gratuita.

Quanto menos você pensar sobre o som, mais você gosta da música.

Um grande produto vai sobreviver a uma crítica injusta negativa.

Novos formatos de áudio soam mal nos primeiros 10 anos.

Se você pode ouvir o seu subwoofer, é porque está muito alto.

Pouco baixo é melhor do que muito baixo.

Precisão e musicalidade não são mutuamente exclusivas.

A compressão de dados é meu para a música.

Se um produto soa melhor, é porque é melhor.

Seu sistema é mais provável de falhar ou começar a soar mal pouco antes de seus amigos chegarem para uma sessão de audição.

Trabalhar na otimização de configuração são mais valiosos do que uma conta bancária grande para conseguir um bom som.

Um sistema bem escolhido e bem instalado de preço moderado sempre vai superar um sistema mais caro, menos cuidadosamente escolhidos e com pior set-up .

Ouvir música é uma parte essencial da existência humana; Home Theater é divertido.

Se o sinal não é bom no início da cadeia, nada a jusante pode fazer melhor.

Ser capaz de andar por detrás de seu rack de equipamentos é uma grande vantagem.

A sala de audição é um outro componente na cadeia de reprodução.

Combine a saída de graves das suas colunas para o tamanho do seu quarto.

O ressurgimento em eletrónicos de áudio a válvulas não tem nada a ver com nostalgia e tudo a ver com música.

Um sistema de hi-fi é um veículo para descobrir o mundo da música.

Escuta crítica é trabalho duro.

Áudio digital já percorreu um longo caminho nos últimos 10 anos e ele ainda tem um longo caminho a percorrer.

Uma coluna pequena, provavelmente, soa melhor do que uma coluna grande na mesma faixa de preço.

Com as medidas não é possível prever a qualidade do som, mas são indicadores de quão bem ou quão mal o produto foi projetado.

Reproduzindo a oitava mais baixa corretamente é muito caro.

Quanto mais transparente o sistema de reprodução, mais perto você chega à mensagem musical.

Alguns veteranos da indústria acreditam que estamos 95% do caminho para reproduzir música ao vivo. Outros pensam que estamos apenas 5%.
Resumindo, não basta adquirir os equipamentos mais caros do mercado, para ter um equipamento de elevado desempenho na sua sala de audição. É necessário muito tempo dedicado à otimização do que temos, contingente ao tipo de sala que existe fisicamente.

A sala de audição

A sala de audição dos nossos sistemas de som em casa é talvez o elo da cadeia que mais condiciona o limite até onde os equipamentos podem ir. E este fato leva a que muitos audiófilos gastem elevadas somas de dinheiro em novos equipamentos e não conseguem retirar todo o seu potencial. E o maior dos problemas é o controlo dos Graves, já que tem um comprimento de onda maior.
Vamos à parte cientifica:
As salas de audição costumam ter dimensões entre 3 e 6 m, em cada parede. Por exemplo, 3x4m, 3x5m, 4x6m. Essas são as medidas mais comuns. Cada uma dessas dimensões são iguais ao comprimento de onda de uma frequência.
Por exemplo, 116 Hz tem o comprimento de onda igual a 3m. Isso causa um fenómeno conhecido como sympathetic resonance, ou ressonância mecânica. Isso quer dizer que, quando as colunas estiverem a tocar algo em 116 Hz, essa parede vai vibrar na mesma frequência e vai existir um boost nessa nota. Então, qualquer instrumento que tenha 116 Hz na sua gama de frequências, vai sofrer um boost e soar mais grave do que ele realmente é.
A sala tem 3 dimensões básicas: comprimento, largura e altura. Cada uma delas tem uma medida e essa medida é relativa a uma frequência.
Nos estúdios essas dimensões são muito grandes. Uma parede com 12 m tem o comprimento de onda de 29 Hz, que é praticamente inaudível ao ouvido humano.
Logo, eles não precisam se preocupar muito com graves. Já os que ouvem música no conforto da sua casa tem mesmo que se preocupar com isso!
A maioria das salas tem dimensões que abrangem as frequências entre 50 e 250 hz. Por esse motivo – a ressonância empática, ou mecânica – os graves são o nosso maior problema e o principal alvo do tratamento acústico para as nossas salas.
Mas ao mesmo tempo as nossas salas de audição são também as zonas comuns e que fazem parte do tratamento estético das nossas casas. A maior parte de nós não tem uma sala dedicada unicamente para a audição de música. Por exemplo, no meu caso, o que eu gosto mesmo é de estar com os meus amigos confortavelmente e ao mesmo tempo a ouvir música no meu sistema. O que quer dizer que temos de ter um equilíbrio entre o tratamento acústico e o tratamento estético.
Já todos tivemos oportunidade de visitar uma casa onde as salas estão vazias e onde asa nossas vozes parecem estranhas e cheios de ecos. Pois aí está uma forma de melhorar o som das nossas salas – colocando estantes e tapetes que irão fazer a absorção e a refração das ondas sonoras atrasando umas aumentando a velocidade de outras de forma a que o som que nos chega aos ouvidos seja coerente e com as menores perdas possível.

As colunas

Uma das características dos audiófilos, até porque pressupõe a constante procura da melhor qualidade de som é o upgrade.
Há quem defina o ser audiófilo como aquele que procura um sistema que permita um controlo das frequências mais baixas com o maior controlo – como vimos a parte mais difícil de ser feito!.
E 40 a 50% das alterações que se fazem nos sistemas começam nas colunas. E é por isso que, mais do que qualquer outro equipamento, a oferta de alternativas diferentes é maior.
Também é aquele equipamento que está mais proeminente numa sala de audição e que altera normalmente a sua estética global.
E se pensarmos um pouco nas limitações das dimensões das nossas salas, e se o que se pretende é o perfeito equilíbrio de todas as frequências do espectro sonoro, a escolha mais importante é entre colunas de duas vias (ou também chamadas de monitores) e colunas de 3 ou mais vias.
Como já vimos umas das regras básicas é – para o mesmo preço, uma coluna de 2 vias é melhor que uma de 3.
Ora o que é que as diferencia?
Uma coluna de 3 vias (ou mais) tem um altifalante para cada nível de frequência – agudo, médio e grave. Para separar o sinal vindo do amplificador, é preciso um elemento chamado o crossover que faz esse trabalho e distribui as frequências para cada altifalante dedicado.
Uma coluna de 2 vias tem dois altifalantes – o dos agudos e um para os médios e graves.
Teoricamente uma coluna de 3 vias seria a melhor opção para um som mais equilibrado.
Mas não é assim. Uma coluna de 3 vias necessita de um trabalho intenso em que todas as partes mecânicas e eletrónicas são complexas o que leva a um custo elevadíssimo para se ter um projeto em condições.
Mas, para além da força da técnica há a técnica da força.
As colunas de 2 vias, chamadas também de monitoras, porque conseguem um nível de detalhe e transparência muitíssimo elevado, por troca claro de não conseguir reproduzir as frequências abaixo de 40/50 Hz. Mas se pensarmos que as frequências próprias das nossas salas está acima destes valores, até que é uma vantagem.
Mas nós audiófilos para além da razão temos acima de tudo a emoção. E temos muitas dificuldades em controlar o desejo de ter umas colunas “grandes”, com vários altifalantes e que tiveram testes nas revistas de especialidade muito positivas. Sonhamos com a reprodução de grandes massas orquestrais mantendo a sua grandiosidade que só uma colunas de grandes dimensões pode conseguir.
E aí começa a dor de cabeça. Controlar as frequências mais baixas numa sala pequena para o efeito.

O resto do sistema

Existem duas escolas distintas – a inglesa e a americana.
Na escola Inglesa tem como lema “se a qualidade da fonte de sinal – CD, leitor de vinil, etc – for má, nada a montante fará milagres”. E assim definem que a maior fatia do orçamento deve ir precisamente para a compra das fontes sinal.
A escola Americana diz precisamente que é nas colunas que está o ganho (literalmente, ganho como força de deslocação de ar). E a maior fatia do orçamento deverá ir para as colunas.
Como se pode ver nestas duas escolas, a amplificação fica no meio, isto é, não deve aquecer nem arrefecer, desde que tenha potência suficiente para mexer com as colunas e não estrague o sinal que vem da fonte.
Pela minha experiência diria que todo o equilíbrio do sistema, em que se inclui a sala é importante, e para melhor exemplificar o que estou a dizer nada como contar a minha história no reino da audiofilia.

A história

No princípio era a Musica! Lembro-me de levar o meu transístor a pilhas para ouvir o programa Pagina 1 com as novidades da Carly Simon, ou de estar á noite a ouvir o programa Rotações do Antonio Sergio com o ultimo álbum do Ian Dury, ou de passar algum tempo a ouvir os discos na Discoteca Melodia na Rua do Carmo.

Nessa altura a aparelhagem era a do meu pai e era uma Pioneer, com um prato PL514 e agulha (agora diz-se célula) Shure V15IV, que comprei numa loja na Rua da Madalena (não sei se era no sitio onde hoje é a Delmax). Depois na altura do casamento tive de comprar nova aparelhagem para a minha casa e fui a uma loja chamada Raio de Som com um vendedor muito simpático José Filipe de seu nome e fiquei com um sistema Akai com umas colunas Musical Fidelity MC2 que tinha lido que eram muitos boas para o preço. Ainda a fonte de sinal era o Gira Discos. Um dia começou a falar-se do tal novo formato - o CD. E como não podia deixar de ser eu tinha de ser um dos primeiros a ter um e lá fui ter com o José Filipe e comprei um Technics que não me lembro da referência. Mas que som, pensava eu na altura! O ganho era muito superior ao do GD e dava aquela sensação de som mais alto que se considerava melhor. Para já não falar na grande vantagem que era não se riscarem nem se estragarem (pensávamos nós...).

Na altura eu tinha uma referência em termos de sistema que era a de um meu amigo que tinha os QUAD 500 e o prato Thorens. Mas com o meu novo CD até que já tinha uma aparelhagem melhor.

Até que comecei a ir aos AudioShows, e dos primeiros fiquei com as seguintes imagens: primeiro o som e o aspeto estético espetacular das Sonus Faber Extrema que nunca mais me deixou de marcar, depois a profusão das colunas eletrostáticas com as musicas do Ravi Shankar e da sua citara que hoje quase desapareceram (as Quad ESL 63 eram uma presença obrigatória) e a ascensão do José Filipe com a sua Viasónica a presentear os clientes, para além da sua disponibilidade sempre presente e os melhores sons dos respetivos Shows.

E claro começou ai a vontade sempre insatisfeita dos upgrades. Primeiro com a compra dumas colunas Sonus Faber Minueto e com a compra de um tal amplificador maravilha que se chamava Pioneer A400. Depois com a compra de um novo leitor de CD, o Rotel 964BX. Tinha agora um som muito menos agressivo do que com o CD anterior mas a verdade é que me faltava alguma potência para fazer tocar as Sonus Faber.
Nessa altura as lojas de equipamentos de alta-fidelidade nasciam todos os dias. A Transom tinha várias lojas entre elas uma vivenda lá para os lados da Estefânia. Comecei a esperar avidamente pela Revista Mensal Audio e a olhar muito atentamente para os equipamentos de ocasião. Acabei por comprar uns monoblocos da Musical Fidelity os MA50X, que funcionavam em classe A. O problema era que não tinha um pe-amplificador e lá fui ter com o Alberto da Viasónica que me falou que tinha um pré da Audio Research - o LS7 - com válvulas novas.

E foi a minha entrada no mundo das válvulas. Também acabei na mesma altura por trocar de colunas, agora para uma Minima Amateur.

Ora de facto estas colunas precisam de muito músculo, coisa que só percebi mais tarde, quando troquei de amplificação. Fiquei então com um som muito suave em todo o sistema, aliás demasiado - o Rotel RCD965BX já tinha essa característica aliado aos MA50 ainda aumentei mais essa tendência.
Entretanto começou a moda dos amplificadores integrados - a Krell, a Plinius, a Jeff Rowland apresentaram as suas propostas com valores próximos dos 5.000 € (na altura ainda em contos) e combinei com o Alberto uma sessão com esses amplificadores e as minhas colunas. Primeiro foi o Krell 300 que sinceramente não me disse nada. Mas depois foi o espanto - o Jeff Rowland Concentra. Um meu som - palco sonoro, transparência, enfim um toque de classe que não consegui esquecer. O problema foi que em termos financeiros a coisa não chegava lá. Mas registei.
E já estamos no tempo em que a moda eram os DAC externos e a discussão sobre o jitter. Era o inicio da perceção que afinal a qualidade do CD não era tão evidente e que se podia por em causa. Ao mesmo tempo, as marcas começaram a tentar resolver esses problemas e surge o HDCD, com a sua resolução dos 20 bits.
Como eu não posso ver nada, comprei um DAC externo com HDCD - o Audio Alchemy DDE v 3.0 e o respectivo DTI redutor de jitter. De facto, finalmente tinha um som muito mais encorpado, mas sentia que estava a uma distância muito grande daquela dinâmica que ouvia nos sistemas dos AudioShows (os mais baratos, claro...). Já tinha um palco sonoro bem superior, umas frequências mais baixas muito mais evidentes e claro, os discos HDCD de testes da Reference Records a darem um verdadeiro espetáculo de qualidade e transparência. O problema é que eu gosto de um bom som mas com boa música, e a que era apresentada para teste era música mas não a minha...
Num Natal desses fiz também uma compra simpática que me fez recuar um pouco no tempo - um sistema analógico baseado no Rega Planar 3, célula Goldring Electra, uma MC. Penso que aqui dei um passo maior que a perna (acontece muitas vezes no caminho do upgrade), já que o meu pré de phono que também comprei na altura em segunda-mão - o Musical Fidelity XLPS, não conseguia dar o ganho suficiente ao restante sistema. Enfim, ouvia os LP´s que tinha, mas faltava-lhe a alegria que mais tarde vim a descobrir e que foi uma autêntica revelação. Aliás como foi o equipamento de comprei a seguir e que mudou radicalmente o som de minha casa.
Estava na altura de pensar em trocar de amplificação. Precisava de fazer as Sonus Faber dar o seu melhor e como já tinha p pré-amplificador a válvulas estava a pensar num amplificador a válvulas. Só que tinha medo que a potência normalmente mais baixa desses não chegasse para as colunas. Fui ter com o Carlos Delgado, então ainda na Transom e ele falou-me numa tal retoma de um amplificador híbrido que a 4 ohms debitava 150 watts - o Counterpoint SA100. Fiquei com ele e foi então que vi o que tinha estado a perder - a potencia (tal como o tamanho...) não é tudo mas ajuda muito. As Sonus debitavam agora música com poder e controlo como nunca tinha tido. Finalmente havia espetáculo na minha sala!
Sim eu sabia que a Counterpoint tinha fechado mas arrisquei. E foi mais tarde, quando o conjunto de transístores Mosfets da esquerda queimou de vez, que tive de substituir a amplificação, já que reparação não foi possível. (ainda bem, digo eu agora!)
Entretanto começou no mundo do áudio a alteração profunda do stereo para o cinema em casa. Muitos amigos substituíram tudo para 5 canais. Eu não fiquei indiferente, apesar de nunca considerar que eram mutuamente exclusivos. Aliás, primeiro que ligasse as minhas Sonus ao sistema de Cinema em Casa foi muito difícil...
Lá comprei um amplificador Sony de 5 canais, um dos mais baratos, um projector da Sanyo, o PLV Z5, colunas Sony Pascal. Mais tarde fiz uma "loucura" e comprei o leitor Denon 3930 para os DVD e de facto foi espantoso a diferença para o Sony que tinha antes. Depois, quando "consegui" ligar as Sonus Minima Amator ao sistema Sony, deu-me para apostar numa coluna central também da Sonus Faber da linha Domus. Tenho que confessar que a influência dos meus filhos, que não ligam muito ao stereo mas gostam dos filmes, foi importante. Mas a chamada aos valores puros voltou e a partir de certa altura, os filhos crescem, e começamos a dar por nós com tempo disponível! Tempo que voltamos a ter para podermos ouvir aquela música sossegadamente e da forma como gostamos.
O facto é que dei por mim a conseguir agenda para visitar os AudioShows, visitar as lojas de equipamentos que tinha deixado de fazer. E vai dai não há nada como iniciarmos novamente o caminho do upgrade que tanto gozo nos dá.
Comecei pela fonte de sinal. Inicialmente a procurar um novo leitor de CD mas acabei por fazer a minha escolha por um sistema analógico. E que diferença! Primeiro comprei o Gyro SE com célula Blue Evo III a que se se seguiu, pela oportunidade apanhada na Imacustica (obrigado José Pinto), do pré Audio Research PH3. Nem podia acreditar na transparência, palco sonoro, dinâmica e definição das frequências extremas agudos e graves. O prazer de (re) ouvir os meus discos LP foi indescritível.
Já vos tinha falado do registo que nunca esqueci do som do Jeff Rowland Concentra. Pois, numa das audições um pouco mais "pesadas" em minha casa, o Counterpoint "pifou" um dos canais. A troca era agora uma imposição. Mais uma vez pensei nas válvulas até que, numa procura desinteressada na net, encontrei um anúncio da venda do Jeff Rowland. Meus caros amigos, não dava para ultrapassar a oportunidade
Meti-me no carro e fui ao Porto, encontrar-me com um dos nossos colegas audiófilos e pronto. Teve de ser!
O que dizer do reencontro com aquele som suave, detalhado, encorpado do Jeff Rowland? Claro que o sistema anterior - Audio Research LS7 e Counterpoint SA100 - apresentava a música mais frontalmente, com talvez mais "espetáculo", mas agora descobria pormenores e envolvência como não tinha antes - para além disso representou a minha subida de escalão de preços por peça, pormenor que nestas coisas dos upgrades torna-se importante.
Fiz uma pequena alteração da fonte CD em que agora utilizo o Denon 3930 como transporte (muito bom, por sinal) ligado ao meu sistema da Audio Alchemy.
Até que tive a oportunidade de finalmente dar o salto para a estratosfera dos equipamentos de áudio – a aquisição do leitor de CD da Audio Research de topo, o CD9, a compra do pré de phono, o Audio Research PH6 e este ano com a troca das minhas colunas pelas novas Sonus Faber Olympica I. Que dizer do som que se consegue com o estado da arte em equipamentos de alta-fidelidade? Aliás passei agora a barreira para o outro lado do espelho – o hi-end. Aquele universo em que cada peça custa para lá das dezenas de milhares de euros, numa tendência que se vai acentuando nestas coisas da audio e não só – o desaparecimento da classe média. Os equipamentos são agora excelentes (na sua relação custo/qualidade) tanto nos valores mais baixos como nos preços que valem uma moradia em Cascais por sistema!
Mas então a partir daí parei de investir no meu sistema, perguntam vocês?
Nada disso. Passei ao segundo nível de aperfeiçoamento com especial enfoque no tratamento das vibrações e acerto no tipo de cabos utilizados desde a tomada de corrente até às colunas.
E de cada vez que faço uma melhoria, a minha satisfação pelo som que consegui com tanto esforço ao longo destes anos compensa quando a nossa cara-metade nos “obriga” a colocar mais música para ouvirmos com um prazer sempre crescente, em vez de pedir para desligarmos a aparelhagem porque quer ver a televisão.
E há um sentimento que eu neste momento sinto - o prazer de estar a olhar para o meu sistema de som ao fim de mais de 25 anos em upgrades e compras de equipamento, mesmo sem sair qualquer som!

De facto, ver o equilíbrio que consegui ao fim deste tempo todo e em que não posso negar algum cuidado na estética que só se consegue nos equipamentos a partir de um certo nível de preço, é notável.

Claro que as minhas últimas aquisições em termos de móveis (muito por "culpa" de alguns amigos foristas que me "obrigaram" a colocar o Audio Research CD9 numa mesa dedicada) mas também o facto de ter conseguido um sistema "lean" agradável à vista - amplificador integrado, leitor de CD, gira discos e pre de phono, ajudam.

Claro que tenho que dizer que a qualidade que eu consegui com o "salto quântico" do CD9 ajuda a estar "enamorado" com o sistema. Mesmo quando me sento só a admirar o aspeto estético.

O futuro

Mas hoje em dia a música é ouvida de outra forma bem diferente da minha (por exemplo, eu não oiço CD´s no automóvel, a rádio para mim só serve para ficar a par do que de novo se faz para depois ouvir as músicas no meu sistema em casa). O download é rei. Um álbum hoje em dia não faz sentido. Cada um faz o alinhamento que quer com os músicos em constante arranjos sem grande fio condutor. O Concept Album tão querido dos jovens da minha altura (!) deixou de fazer sentido (Tommy, dos The Who; The Wall, Pink Floyd; Yellow Brick Road, Elton John; The Lamb Lies Down on Brodway, Genessis). Ouvir um disco inteiro do princípio ao fim é uma “seca” para a maioria da nova geração.
E depois há o MP3 e o fenómeno da Loudness War em que a compressão do sinal se deu ao nível dos médios e agudos, fazendo sobressair os graves que é que faz “mexer” o corpo. Ora quando 90% da informação sonora está precisamente nessas frequências que foram comprimidas, já podemos ter noção do que se está a perder. Perde-se toda a informação que os criadores quiseram transmitir, todo o trabalho que os estúdios de gravação se esforçaram para gravar e misturar, tentando ser o mais fiel possível ao Conceito Musical inicial (não podemos esquecer que o som vai-se alterando desde a escolha dos microfones, passando pelos cabos utilizados e todos os sistemas eletrónicos por onde vai passando o sinal, que não é mais que ondas de ar excitadas pelos instrumentos transformadas em sinais elétricos).
Mas há sinais encorajadores para essa minoria que gasta muito tempo e dinheiro na montagem de um sistema de som o mais transparente e ao mesmo tempo transmissor da emoção dos músicos: nasceu a Tidal, que tem como proposta de valor a streaming de alta qualidade de som; as vendas de vinil aumentaram nos últimos anos (atenção ás novas prensagens, que algumas são péssimas); a qualidade de gravação dos novos CD tem aumentado brutalmente (amostragem de 16bits/44Khz apesar de ser pouco, agora que o SACD morreu, tem de chegar!)); as vendas de downloads de alta definição (DSD com amostragens até 512 bits. PCM com amostragens de 24bits/192Khz) fazem renascer a necessidade de a montante se apostar forte num bom estúdio, com excelentes equipamentos e melhores misturas, pois podem ter novamente a certeza que no final da cadeia há alguém com sistemas de som que conseguem dar o justo valor do seu trabalho.
Ainda vale a pena apostar num som de qualidade.

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