Orquestra Virtual – Parte 1

Tive a felicidade de estudar música sem computadores. Havia papel, lápis e um trompete.
Mais tarde os meus pais compraram um piano, em segunda mão, que serviu para as minhas primeiras experiências de composição. Tive também a felicidade de estudar música e receber um subsídio do ministério de educação para esse efeito. Será escusado dizer que gastei tudo em instrumentos, amplificadores e acima de tudo, um gravador de cassetes.
Na escola tive outra felicidade: poder estudar código BASIC e aí criei o meu primeiro programa que escrevia música. As músicas não eram em nada especiais, mas aprendi mais acerca do processo. Ainda assisti a um curso de música eletrónica onde delirei no meu primeiro contacto com um ARP Odyssey e o EMS Synthi.
Agora eu estava pronto para enfrentar o mundo!
Os anos 80 e 90 forma anos de grande desenvolvimento na área da tecnologia musical, mas a tecnologia de sampling foi talvez o que mais me afetou em termos musicais. Finalmente podia simular as ideias que passavam na minha cabeça sem ter que contratar dezenas de músicos. Isso era bom, não porque os músicos tivessem menos emprego, mas porque não seriam obrigados a tocar as minhas experiências tristes! Sempre gostei dos sons que só existiam no reino eletrónico, mas o meu background na música erudita e a saudade das grandes orquestras empurravam-me na tentativa de perceber até onde ia a tecnologia de simulação.
O progresso era suficientemente lento para eu poder entender tudo o que estava a acontecer, sempre baseado nos conhecimentos que adquiri com os primeiros sintetizadores analógicos.
Com MIDI, os computadores entraram em campo, e já não era apenas uma questão de poder tocar os sons, mas poder “escrever” música nos vários softwares. Não falo da escrita no sentido tradicional, embora ainda a utilize, e muito, para parte do processo de composição, mas graficamente mexer em todos os outros parâmetros que fazem com que um instrumento não apenas soe, mas é tocado, mas que a música seja interpretada, com expressão, um sentimento que conhecia desde os meus tempos de orquestra. Foi fundamental entender que quando toco numa tecla e um sample é disparado, isso é apenas uma pequena parte da música. A nota precisa fazer qualquer coisa, crescer, mudar de timbre, deslizar, desaparecer. enfim basta ouvir grandes músicos para entender que não basta saber tocar as notas, e preciso saber comunicar sentimentos em cada uma delas!
Hoje, os sons disponíveis são incríveis, até podemos escolher além do instrumento, o próprio músico, e criar orquestras virtuais que respondem de uma forma somente limitada pela nossa capacidade de interpretação. Eu trato cada instrumento como um elemento único, nunca “toco” mais do que um instrumento de cada vez, e coloco-me mentalmente na posição dentro de orquestra, para poder reagir como se estivesse frente ao maestro a tocar e a ouvir todos os outros músicos. Neste processo, quase que desaparece a necessidade de “mistura” pois a mistura é feita pelos “músicos” que “tocam” sempre em função dos outros, com a dinâmica e expressão necessária. Enfim é isso que acontece num concerto, não há técnicos de som, apenas um grande, gigantesco conjunto de músicos que sabem interagir entre eles, com a ajuda do maestro.

Para isso tudo, claro que é preciso trabalho. É preciso saber música, e conceitos de orquestração. Para tal há livros, e cursos. Não há magia, apenas uma ferramenta espetacular para quem quer aproveitar e tornar as suas ideias numa realidade, embora com som virtual.

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